Friday, 28 February 2014

Os gurus da felicidade não falam

¿Mostrar ou esconder amor? ¿Expor ou ocultar o sofrimento? ¿Estender a mão ou ouvir a autocensura incoerente? ¿Entregar a alma ou desviar o olhar? ¿Todas estas dúvidas ferventes que corrompem a prossecução do nosso quotidiano são insignificantes para eles, seres mais avançados na ciência da humanidade, embora não façam parte dela. Refiro-me aos cães, porque cresci com eles, mas acredito que poderia mencionar inúmeras espécies animais.

Há quem se apresse a fazer generalizações sobre os animais, o que só por si revela o quanto precisamos de aprender com esta espécie, que na maior parte dos casos consegue num ápice distinguir o “amigo” do “inimigo”, sem influências de terceiros ou de experiências passadas. Mas mais do que nas distinções intuitivas, eles são peritos nas artes de aproximar, de festejar sorrisos e de valorizar e amar a existência alheia sem pedir absolutamente nada em troca. ¿Para quê as palavras, se a mais genuína comunicação emana do corpo? ¡Os especialistas dizem que 80 por cento da comunicação humana é não-verbal!

Podia fazer uma lista das coisas que estes mestres da dignidade sacrossanta já me ensinaram. Podia descrever como a jovem Guga arrastava parte do corpo morto pela esgana, coberta com um manto de mosquitos que aguardavam que sucumbisse, só para me cumprimentar. Podia descrever exemplos de verdadeiras transformações, como a Lucky (a sortuda acabei por ser eu), que depois do medo que alguns humanos lhe impregnaram conseguiu superar-se e aproximar-se aos poucos, em vez de, como muitos humanos, responder na mesma moeda, tornando-se violenta.

Lucky, que tinha um olho azul e entrava em carros de desconhecidos

Os cães são capazes de ladrar, uivar e permanecer estáticos durante anos a fio numa espera inútil perante a morte de um amigo, mas são silenciosos e solitários quando é do sofrimento e da morte deles que se trata. ¿Quantos cães já sem conseguirem quase andar se isolam na hora da morte? ¿Será que a maioria das pessoas consegue silenciar a sua dor e até afastar-se só para não entristecer os demais?

Qual será o humano capaz de um milagre feito em dezenas de quilómetros a pé para reaver alguém que o abandonou? Nós temos tanta dificuldade em perdoar e em dar segundas oportunidades ou até em lutar por alguém, porque o nosso ego entende que a melhor a infelicidade e a solidão do que a humilhação.

Não há religião ou teoria nisto. Tudo é amor incondicional e tudo é tão simples. Tudo se resume a perceber que a vida só é realmente vivida se for dedicada a servir os outros.

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