¿Mostrar ou esconder amor?
¿Expor ou ocultar o sofrimento? ¿Estender a mão ou ouvir a autocensura
incoerente? ¿Entregar a alma ou desviar o olhar? ¿Todas estas dúvidas
ferventes que corrompem a prossecução do nosso quotidiano são
insignificantes para eles, seres mais avançados na ciência da
humanidade, embora não façam parte dela. Refiro-me aos cães, porque cresci com eles, mas acredito que poderia mencionar inúmeras espécies animais.
Há
quem se apresse a fazer generalizações sobre os animais, o que só por
si revela o quanto precisamos de aprender com esta espécie, que na maior
parte dos casos consegue num ápice distinguir o “amigo” do “inimigo”,
sem influências de terceiros ou de experiências passadas. Mas mais do
que nas distinções intuitivas, eles são peritos nas artes de aproximar,
de festejar sorrisos e de valorizar e amar a existência alheia sem
pedir absolutamente nada em troca. ¿Para quê as palavras, se a mais
genuína comunicação emana do corpo? ¡Os especialistas dizem que 80 por
cento da comunicação humana é não-verbal!
Podia fazer uma lista das
coisas que estes mestres da dignidade sacrossanta já me ensinaram. Podia
descrever como a jovem Guga arrastava parte do corpo morto pela esgana,
coberta com um manto de mosquitos que aguardavam que sucumbisse, só
para me cumprimentar. Podia descrever exemplos de verdadeiras
transformações, como a Lucky (a sortuda acabei por ser eu), que depois
do medo que alguns humanos lhe impregnaram conseguiu superar-se e
aproximar-se aos poucos, em vez de, como muitos humanos, responder na
mesma moeda, tornando-se violenta.
Lucky, que tinha um olho azul e entrava em carros de desconhecidos
Os cães são capazes de ladrar,
uivar e permanecer estáticos durante anos a fio numa espera inútil
perante a morte de um amigo, mas são silenciosos e solitários quando é
do sofrimento e da morte deles que se trata. ¿Quantos cães já sem
conseguirem quase andar se isolam na hora da morte? ¿Será que a maioria
das pessoas consegue silenciar a sua dor e até afastar-se só para não
entristecer os demais?
Qual será o humano capaz de um milagre feito
em dezenas de quilómetros a pé para reaver alguém que o abandonou? Nós
temos tanta dificuldade em perdoar e em dar segundas oportunidades ou
até em lutar por alguém, porque o nosso ego entende que a melhor a
infelicidade e a solidão do que a humilhação.
Não há religião ou
teoria nisto. Tudo é amor incondicional e tudo é tão simples. Tudo se
resume a perceber que a vida só é realmente vivida se for dedicada a
servir os outros.
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