Auxiliar alguém é como se nos dessem a oportunidade de amar
sem ter de esperar nada em troca, sem enveredar por medições e contraposições,
como exige a sociedade materialista e individualista em que vivemos. É uma
espécie de novo amor livre, não cilindrado. ¿Mas até que
ponto é que essa ajuda não se traduz apenas num egoísmo chafurdado?
É certo que aprender a receber é bem mais complicado do que
aprender a dar. Porém, é igualmente complicado compreender que dar é uma arte
astuta que envolve uma entrega muito maior do que aquela que o ego ou o coração
demandam.
Oferecer o que se tem a mais é um gesto nobre, mas inúmeras
vezes iluminado de sobranceira. Regalar o que nos solicitam, mesmo que seja
atenção, já exige uma predisposição de entrega maior. Agora, descer do suporte
ególatra em que nos colocamos e decidir não auxiliar quando nos pedem ou parar
para perceber se uma oferta de ajuda terá o efeito desejado é um acto de amor
coragem e de respeito pela dignidade do outro.
Há pessoas que aceitam a simplicidade da sua vida e não
desejam uma vivência mais próspera aos olhos da sociedade. Há pessoas que
necessitam que parem de ajudá-las para que descubram as suas forças e se
valorizem, em vez de se deleitarem numa degeneração preguiçada e consentida. E
há pessoas que se forem ajudadas toda a vida poderão nunca experimentar esse
amor de quem tem tanto para dar, saindo assim duplamente prejudicadas.
Não se trata de deixar de ajudar por falta de recompensas,
visíveis ou invisíveis. Trata-se sempre de apoiar, mesmo de costas voltadas,
mas com a proximidade suficiente para ver o que se passa e estender a mão se
for necessário. Funciona quase como educar, tendo, contudo, sempre presente que
a pretensão de auxiliar o outro não pode estender a passadeira por cima do
livre-arbítrio alheio.
Se a solidariedade deve ser uma profissão para toda a vida,
ela jamais pode ser desvinculada de compaixão e de responsabilidade, porque a
apoio não se concretiza do modo que se quer, mas do modo que é necessário.
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