Saturday, 7 September 2013

¿Solidariedade ou uma fuga ao amor cilindrado?

Não há nada melhor do que o sentimento de ajudar alguém que amamos. Ou até que não amamos, mas que passamos a amar, pela nobreza do sentimento que nos permitem desenvolver.

Auxiliar alguém é como se nos dessem a oportunidade de amar sem ter de esperar nada em troca, sem enveredar por medições e contraposições, como exige a sociedade materialista e individualista em que vivemos. É uma espécie de novo amor livre, não cilindrado. ¿Mas até que ponto é que essa ajuda não se traduz apenas num egoísmo chafurdado?

É certo que aprender a receber é bem mais complicado do que aprender a dar. Porém, é igualmente complicado compreender que dar é uma arte astuta que envolve uma entrega muito maior do que aquela que o ego ou o coração demandam.

Oferecer o que se tem a mais é um gesto nobre, mas inúmeras vezes iluminado de sobranceira. Regalar o que nos solicitam, mesmo que seja atenção, já exige uma predisposição de entrega maior. Agora, descer do suporte ególatra em que nos colocamos e decidir não auxiliar quando nos pedem ou parar para perceber se uma oferta de ajuda terá o efeito desejado é um acto de amor coragem e de respeito pela dignidade do outro.

Há pessoas que aceitam a simplicidade da sua vida e não desejam uma vivência mais próspera aos olhos da sociedade. Há pessoas que necessitam que parem de ajudá-las para que descubram as suas forças e se valorizem, em vez de se deleitarem numa degeneração preguiçada e consentida. E há pessoas que se forem ajudadas toda a vida poderão nunca experimentar esse amor de quem tem tanto para dar, saindo assim duplamente prejudicadas.

Não se trata de deixar de ajudar por falta de recompensas, visíveis ou invisíveis. Trata-se sempre de apoiar, mesmo de costas voltadas, mas com a proximidade suficiente para ver o que se passa e estender a mão se for necessário. Funciona quase como educar, tendo, contudo, sempre presente que a pretensão de auxiliar o outro não pode estender a passadeira por cima do livre-arbítrio alheio.

Se a solidariedade deve ser uma profissão para toda a vida, ela jamais pode ser desvinculada de compaixão e de responsabilidade, porque a apoio não se concretiza do modo que se quer, mas do modo que é necessário.

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